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- Disse algo de errado, Vossa Graça? Por que motivo
ele não falou comigo?
- Sor Ilyn não tem sido falador nestes últimos
catorze anos - comentou Lorde Renly, com um
sorriso irônico.
Joffrey lançou ao tio um olhar de pura repugnância,
e depois tomou as mãos de Sansa nas suas.
- Aerys Targaryen mandou arrancar-lhe a língua
com tenazes quentes.
- No entanto, fala de modo bem eloquente com a
espada - disse a rainha -, e sua devoção pelo nosso
reino está fora de questão - então, sorriu
amavelmente e disse: - Sansa, os bons conselheiros e
eu temos de conversar até que o rei regresse com seu
pai. Temo que tenhamos de adiar seu dia com
Myrcella. Transmita, por favor, as minhas desculpas
à sua querida irmã. Joffrey, talvez possa ter a
amabilidade de entreter a nossa convidada.
- Com todo o prazer, mãe - disse Joffrey, muito
formalmente. Tomou-a pelo braço e afastou--a da
casa rolante, e o estado de espírito de Sansa
levantou voo. Um dia inteiro com seu príncipe!
Olhou para Joffrey com adoração. Ele é tão galante,
pensou. O modo como a salvara de Sor Ilyn e do Cão
de Caça, ora, fora quase como nas canções, como
daquela vez em que Serwyn do Escudo Espelhado
salvou a Princesa Daeryssa dos gigantes, ou quando
Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, defendeu a
honra da Rainha Naerys contra as calúnias do
malvado Sor Morgil.
O toque da mão de Joffrey em sua manga fez seu
coração bater mais depressa.
- O que gostaria de fazer?
Estar contigo, pensou Sansa, mas, em vez disso,
respondeu:
- O que quiser fazer, meu príncipe.
Joffrey refletiu por um momento.
- Podíamos ir montar a cavalo.
- Ah, eu adoro montar - ela exclamou.
Joffrey olhou de relance Lady, que os seguia de
perto.
- O lobo pode assustar os cavalos, e meu cão parece
assustá-la. Deixemos ambos para trás e vamos os
dois sozinhos, o que diz?
Sansa hesitou.
- Se assim desejar - disse, incerta. - Suponho que
poderia amarrar Lady - no entanto, não tinha
certeza de ter compreendido. - Não sabia que tinha
um cão...
Joffrey riu.
- Na verdade, é da minha mãe. Ela o designou para
me guardar, e é o que ele faz.
- Fala do Cão de Caça... - Sansa entendeu. Quis
bater em si própria por ser tão lenta. Seu príncipe
nunca a amaria se parecesse ser estúpida. - É seguro
deixá-lo para trás?
Príncipe Joffrey pareceu aborrecido por ela ter
perguntado.
- Nada tema, senhora. Sou quase um homem feito, e
não luto com madeira como seus irmãos. Tudo de que
necessito é isto - desembainhou a espada e a
mostrou; uma espada longa destramente encolhida
para se adequar a um rapaz de doze anos, aço azul
brilhante, forjada em castelo e de duplo gume, com
um punho de couro e um botão de ouro em forma de
cabeça de leão. Sansa exclamou de admiração ao vê-
la, e Joffrey pareceu satisfeito. - Chamo-a Dente de
Leão - disse.
E assim deixaram para trás a loba gigante e o
guarda-costas, e cavalgaram para leste ao longo da
margem norte do Tridente sem outra companhia que
não Dente de Leão.
Estava um dia glorioso, um dia mágico. O ar estava
quente e pesado com o odor das flores, e os bosques
tinham ali uma beleza suave que Sansa nunca vira
no Norte. A montaria do Príncipe Joffrey era um
corcel baio vermelho, ligeiro como o vento, e ele o
montava com destemido abandono, tão depressa que
Sansa teve dificuldade em acompanhá-lo em sua
égua. Estava um dia para aventuras. Exploraram as
grutas próximas da margem do rio e seguiram os
rastros de um gato-das-sombras até sua toca, e
quando ficaram com fome Joffrey localizou um
castro pela sua fumaça e, ao chegar, ordenou que
trouxessem comida e vinho para o príncipe e sua
senhora. Jantaram trutas frescas do rio, e Sansa
bebeu mais vinho do que alguma vez já bebera.
- Meu pai só nos deixa beber uma taça, e apenas nos
banquetes - confessou ao seu príncipe.
- Minha prometida pode beber tanto quanto desejar
- disse Joffrey, voltando a encher-lhe a taça.
Depois de comer, prosseguiram mais lentamente seu
caminho. Joffrey cantou para ela enquanto
cavalgavam, com uma voz aguda, doce e pura. Sansa
estava um pouco tonta do vinho.
- Não devíamos regressar? - perguntou.
- Em breve - ele respondeu. - O campo de batalha é
logo ali à frente, na curva do rio. Foi ali que meu pai
matou Rhaegar Targaryen, sabia? Esmagou-lhe o
peito, crás, mesmo através da armadura - Joffrey
brandiu um martelo de guerra imaginário para lhe
mostrar como se fazia.
- Depois, tio Jaime matou o velho Aerys e meu pai
tornou-se rei. Que barulho é esse?
Sansa também o ouviu, flutuando através dos
bosques, uma espécie de ruído de madeira, snac, snac,
snac.
- Não sei - ela respondeu, já nervosa. - Joffrey,
vamos embora.
- Quero ver o que é aquilo - Joffrey virou o cavalo na
direção de onde vinha o som, e Sansa não teve
escolha a não ser segui-lo. Os ruídos foram ficando
mais fortes e mais distintos, o clac de madeira
batendo em madeira, e quando se aproximaram
ouviram também respirações pesadas e um gemido de
vez em quando.
- Tem alguém ali - Sansa disse ansiosamente. Deu
por si pensando em Lady, desejando que a loba